
Olá, eu sou neuropsicanalista e ajudo pessoas no seu processo de cura interior e autoconhecimento. Adoro música, teatro, filmes e livros.
A relação entre psicanálise e religião sempre foi marcada por tensão e desconfiança. Desde os primeiros escritos de Freud, onde a religião era vista como uma “ilusão”, até as interpretações contemporâneas mais abertas, o campo psicanalítico costuma tratar a fé religiosa com reservas. De um lado, a religião busca respostas transcendentais; de outro, a psicanálise investiga os processos inconscientes que moldam o comportamento humano. Mas será que esses dois universos são realmente incompatíveis?
É nesse ponto que Erich Fromm entra como uma figura singular. Diferente de Freud e outros teóricos clássicos, Fromm não via a religião como algo necessariamente patológico ou ilusório. Ele propôs uma distinção fundamental entre formas autoritárias e humanistas de religiosidade, abrindo espaço para o diálogo entre espiritualidade e ciência da psique. Neste artigo, exploraremos como Fromm abordou essa complexa interseção e quais lições sua visão pode oferecer para o mundo contemporâneo.
Erich Fromm (1900–1980) foi um psicanalista, sociólogo e filósofo humanista nascido na Alemanha. Filho de judeus ortodoxos, teve desde cedo contato com o pensamento religioso, mas sua formação acadêmica o conduziu ao marxismo e à psicanálise. Influenciado por Freud, Marx e o existencialismo, Fromm buscou integrar aspectos sociais, econômicos e espirituais na análise do comportamento humano. Sua abordagem era crítica, mas profundamente ética e centrada no ser humano.
Fromm é considerado um dos grandes nomes da psicanálise humanista. Para ele, o sofrimento psíquico não era apenas resultado de traumas pessoais, mas também de condições sociais alienantes. Defendia a liberdade individual, o amor como força transformadora e o desenvolvimento do caráter como caminho para a saúde mental. Suas obras, como “O Medo à Liberdade”, “A Arte de Amar” e “Psicanálise e Religião”, marcaram uma virada no pensamento psicanalítico do século XX.
Uma das maiores contribuições de Fromm foi a distinção entre dois tipos de religião: a autoritária e a humanista. A religião autoritária impõe dogmas e exige obediência cega, enquanto a religião humanista promove o crescimento interior, a liberdade e a autorrealização. Para Fromm, o problema não estava na religião em si, mas na forma como ela é vivenciada e institucionalizada. A primeira oprime; a segunda liberta.
Fromm entendia a religião como uma necessidade humana de sentido e orientação. Mais do que um fenômeno cultural, ela é uma expressão das necessidades psicológicas do ser humano. Quando saudável, a religião pode oferecer valores éticos, coesão social e propósito existencial. Quando distorcida, torna-se instrumento de manipulação e alienação. Esse olhar complexo evita reducionismos e permite uma análise mais rica do fenômeno religioso.
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, via a religião com uma postura crítica. Para ele, as crenças religiosas eram projeções psicológicas baseadas em desejos infantis, principalmente o desejo por proteção paterna. Em obras como O Futuro de uma Ilusão e Totem e Tabu, Freud argumentava que a religião era uma forma de neurose coletiva, útil em momentos primitivos, mas ultrapassada na era da razão. A psicanálise, em sua visão, deveria libertar o indivíduo da dependência religiosa, levando-o à maturidade psíquica e racional.
Erich Fromm respeitava as contribuições de Freud, mas discordava de sua postura reducionista em relação à religião. Para Fromm, reduzir toda expressão religiosa a um sintoma de imaturidade psíquica era ignorar sua complexidade simbólica, histórica e existencial. Ele via valor nas religiões que incentivavam o autoconhecimento, a empatia, o amor e a ética. Para Fromm, a psicanálise não deveria combater a religião em si, mas sim as formas alienantes de religiosidade que limitam o crescimento humano.
Fromm acreditava que os seres humanos, por sua condição existencial, enfrentam inseguranças profundas. Diferente dos animais, o ser humano possui autoconsciência, senso de finitude e liberdade — o que o leva, inevitavelmente, a buscar sentido e direção. A religião surge, então, como uma resposta à “necessidade de orientação”, oferecendo estruturas simbólicas e morais que ajudam o indivíduo a lidar com o caos existencial.
Na visão de Fromm, a psicanálise tem o papel de compreender e acolher essa necessidade sem julgá-la. Ao invés de combater a religião, a psicanálise deveria ajudar o indivíduo a desenvolver formas mais conscientes e maduras de viver sua espiritualidade. Assim, ao invés de uma fé cega ou imposta, surge a fé baseada na experiência, na reflexão e no vínculo afetivo com o mundo e com os outros.
Um ponto-chave no pensamento de Fromm é a diferenciação entre religiosidade institucionalizada e espiritualidade pessoal. Para ele, a espiritualidade é uma dimensão interna da existência humana, não necessariamente ligada a rituais ou dogmas. É a busca por conexão com algo maior, seja isso Deus, a natureza, ou o próprio sentido da vida. Essa vivência espiritual, segundo Fromm, é compatível com a psicanálise, pois promove o autoconhecimento e a autorrealização.
A verdadeira espiritualidade, para Fromm, deve estar ancorada em valores éticos. O amor, a compaixão, a solidariedade e a autenticidade são pilares de uma espiritualidade saudável. Em suas palavras, amar é um ato de coragem e maturidade emocional. Tanto a psicanálise quanto a religião humanista devem caminhar nesse sentido: ajudar o indivíduo a tornar-se mais humano, mais livre e mais consciente de si e do outro.
Em sua obra mais conhecida, A Arte de Amar, Fromm explora o amor como uma habilidade que pode e deve ser desenvolvida. Para ele, o amor verdadeiro é uma expressão de maturidade, compromisso, cuidado, responsabilidade e respeito. Essa concepção de amor transcende o nível individual e toca o que muitos chamariam de “espiritual”. Embora Fromm não esteja falando diretamente de Deus, sua visão conecta-se com princípios religiosos universais que colocam o amor como a força central da vida.
Fromm defende que o amor genuíno é o caminho para superar o egoísmo, o isolamento e a alienação — males tão presentes na sociedade moderna. Tanto a psicanálise quanto a religião humanista têm como objetivo o desenvolvimento de um ego equilibrado, capaz de amar sem se perder no outro. O amor, nesse sentido, torna-se o ponto de encontro entre a espiritualidade saudável e a psicanálise ética.
Uma das críticas mais contundentes de Fromm é direcionada à religião institucionalizada e autoritária. Ele argumenta que, ao longo da história, muitas instituições religiosas foram usadas para controlar populações, justificar guerras, punir a sexualidade e manter estruturas de poder. Essa forma de religião sufoca o potencial humano, substituindo a experiência direta do sagrado por regras, ameaças e castigos.
Quando a religião se torna uma formalidade vazia, ela perde sua capacidade transformadora. Rituais sem reflexão, dogmas impostos sem questionamento e líderes religiosos autoritários são sintomas de uma prática espiritual esvaziada de sentido. Fromm alertava que esse tipo de religiosidade pode causar mais danos do que benefícios, gerando culpa, medo e dependência emocional em vez de liberdade e desenvolvimento pessoal.
Para Fromm, a psicanálise não deve se limitar à cura de sintomas. Ela é, sobretudo, um processo de descoberta interior. Ao explorar os desejos, os medos e os conflitos inconscientes, o indivíduo encontra oportunidades de transformação profunda. Esse mergulho no “eu” permite a construção de uma vida mais autêntica, pautada por escolhas conscientes e relações mais saudáveis.
Através da análise psicanalítica, o sujeito pode resgatar valores esquecidos ou reprimidos, como a empatia, a compaixão e o amor-próprio. Esses valores, muitas vezes promovidos também por religiões em sua essência mais pura, ganham novo significado quando redescobertos de maneira genuína, sem imposições externas. Nesse ponto, a psicanálise se alinha com a espiritualidade ao promover o desenvolvimento integral do ser.
Segundo Fromm, uma religião verdadeiramente humanista é possível — e desejável. Ela se caracteriza por não impor dogmas nem exigir submissão cega. Em vez disso, incentiva a autonomia, a reflexão crítica e o amor ao próximo. A religião humanista promove a conexão do indivíduo com o mundo, consigo mesmo e com os outros, sem recorrer ao medo ou à culpa. É uma forma de espiritualidade ética, voltada ao florescimento humano.
Fromm reconhece o valor dos símbolos e mitos nas tradições religiosas. Eles não devem ser interpretados de forma literal, mas simbólica, pois comunicam verdades profundas da alma humana. O mito da criação, por exemplo, não precisa ser um relato histórico, mas pode expressar o anseio por origem e propósito. Essa leitura simbólica aproxima a religião da psicologia, permitindo que ambas explorem o inconsciente coletivo e o imaginário humano de forma enriquecedora.
A visão humanista de Fromm inspirou diversas abordagens psicológicas modernas, especialmente aquelas voltadas para o crescimento pessoal. A terapia centrada na pessoa, de Carl Rogers, por exemplo, compartilha com Fromm a ideia de que o ser humano possui um potencial interno de autorrealização. Essas abordagens valorizam a autenticidade, a empatia e a escuta profunda — características que também podem ser encontradas em práticas espirituais saudáveis.
A psicologia transpessoal, surgida nos anos 1960, também carrega a influência de Fromm ao integrar espiritualidade e ciência. Essa vertente reconhece experiências místicas, estados ampliados de consciência e práticas contemplativas como partes legítimas da experiência humana. Embora Fromm não tenha sido um teórico transpessoal, seu pensamento preparou o terreno para essa integração ao defender que o espiritual pode — e deve — ser estudado com seriedade e abertura.
Apesar de sua relevância, o pensamento de Fromm não é isento de críticas. Alguns filósofos e psicanalistas apontam que suas ideias tendem a ser idealistas ou ingênuas, principalmente quando propõe uma união entre espiritualidade e ciência. Outros sugerem que ele simplifica excessivamente a religião ao classificá-la em “boa” (humanista) e “má” (autoritária), ignorando as complexidades internas de cada tradição religiosa.
A tentativa de Fromm de unir dois mundos historicamente antagônicos — ciência e fé — continua sendo um desafio atual. A psicanálise, como ciência, exige comprovação e análise racional, enquanto a fé opera em um campo de experiência subjetiva e muitas vezes inexplicável. Ainda assim, sua proposta continua relevante por abrir espaço para o diálogo e oferecer alternativas à dicotomia razão x religião, tão presente nos debates contemporâneos.
Na prática clínica contemporânea, muitos profissionais já adotam uma abordagem integrativa que respeita a religiosidade do paciente sem impô-la nem descartá-la. Pacientes com fé ativa podem encontrar, na terapia, um espaço seguro para explorar suas dúvidas espirituais e transformar crenças rígidas em vivências mais significativas. Em muitos casos, a religião oferece suporte emocional valioso durante crises existenciais, perdas ou processos de luto, sendo um aliado no tratamento terapêutico.
Estudos mostram que pessoas com uma espiritualidade bem desenvolvida apresentam maior resiliência emocional. A fé pode funcionar como uma base segura, promovendo esperança, propósito e pertencimento. Fromm reconhecia esse valor quando falava da religião como estrutura de orientação e estabilidade. Quando bem conduzida, a vivência religiosa pode contribuir para a saúde mental e para a recuperação de traumas psicológicos.
Em uma sociedade marcada por crises de identidade, hiper individualismo e esgotamento emocional, a busca por sentido se torna cada vez mais urgente. A religião e a psicanálise, embora partam de premissas diferentes, tocam no mesmo ponto: a complexidade da alma humana. O pensamento de Fromm ganha atualidade ao propor que não é necessário escolher entre fé e razão. É possível integrar ambas para construir uma vida mais plena e consciente.
A espiritualidade tem sido reconhecida como um fator importante na saúde mental. Instituições de saúde mental já incluem, em seus protocolos, a avaliação da dimensão espiritual dos pacientes. Fromm antecipou esse movimento ao defender que a realização interior não depende apenas de bem-estar físico ou material, mas também da conexão com valores profundos. Em tempos de ansiedade generalizada, a integração entre psique e espírito pode ser um caminho de cura.
Erich Fromm nos convida a repensar a relação entre psicanálise e religião sob uma ótica mais humana, ética e integradora. Para ele, o problema não está na religiosidade em si, mas nas formas autoritárias e alienantes de vivê-la. A espiritualidade, quando conectada ao amor, à liberdade e à autorreflexão, pode ser uma força positiva no desenvolvimento do indivíduo.
Ao invés de ver fé e razão como inimigas, Fromm propõe um diálogo fértil entre ambas. A psicanálise não precisa negar o sagrado — apenas questionar suas formas distorcidas. Já a religião não precisa temer a ciência — pode enriquecer-se com o autoconhecimento que ela promove. O desafio é encontrar equilíbrio, maturidade e sentido em uma jornada que una o melhor dos dois mundos.
1. Erich Fromm defendia alguma religião em especial?
Não. Fromm não seguia uma religião específica, mas valorizava formas de espiritualidade que promovem o amor, a liberdade e o crescimento pessoal.
2. Qual é a diferença entre religião autoritária e humanista?
A religião autoritária exige obediência cega e controla o indivíduo. A humanista, segundo Fromm, promove autonomia, ética e desenvolvimento interior.
3. A psicanálise nega a existência de Deus?
Tradicionalmente, a psicanálise é neutra quanto à existência de Deus, focando nos aspectos psicológicos das crenças. Fromm, porém, admite o valor simbólico e existencial da espiritualidade.
4. Como a espiritualidade pode ajudar na terapia?
Ela pode oferecer sentido, esperança e estrutura emocional durante processos terapêuticos, especialmente em momentos de crise.
5. Fromm está ultrapassado nos estudos atuais sobre religião e psiquismo?
Pelo contrário. Suas ideias continuam influentes em abordagens integrativas que buscam unir ciência, ética e espiritualidade.






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